Dez anos após o Manifesto Anti-Fashion, o que mudou — e para onde caminha o futuro da moda
Há cerca de 10 anos, Li Edelkoort, uma das mais influentes pesquisadoras de tendências do mundo, apresentou o Manifesto Anti-Fashion durante o BOF Voices. Naquele momento, ela alertava: se a moda continuasse seguindo o ritmo acelerado da fast fashion, caminharia para a obsolescência.
Pouco depois, André Carvalhal lançava o livro O Fim da Moda, reforçando a mesma reflexão. Hoje, uma década depois, os sinais estão evidentes: excesso de produção, consumo acelerado, impactos ambientais severos — como a montanha de roupas descartadas no Deserto do Atacama — e crises sociais ligadas à cadeia produtiva.
Em seu retorno recente ao palco do BOF Voices, Edelkoort revisita suas previsões e analisa como a moda, de fato, entrou em um novo ciclo.
1. A moda se torna mais convencional e tradicional
Segundo Edelkoort, a indústria vive um movimento de retorno à formalidade. A morte de Virgil Abloh simboliza o fim da era do streetwear dominante e abre espaço para silhuetas mais clássicas: camisas, mocassins, alfaiataria limpa e códigos tradicionais.
Paralelamente, vestimentas regionais ganham protagonismo global. Peças como hanbok, sari e quimono passam a ser valorizadas não como fantasia, mas como herança cultural legítima.
2. O feminino e o mágico ganham força
Edelkoort também critica a histórica desvalorização de designers mulheres e celebra criadoras que desafiam tanto a estética quanto os modelos de negócio, como Rei Kawakubo e as irmãs Olsen.
O feminino retorna à moda de forma simbólica e conceitual, acompanhado de elementos místicos, sensíveis e emocionais. Ao mesmo tempo, surgem novas expressões de masculinidade, mais fluidas e menos rígidas.
3. Uma moda mais infantil, vibrante e diversa
Crianças passam a influenciar o design e o comportamento de consumo. Adultos incorporam elementos lúdicos, cores vibrantes e narrativas mais livres.
Nesse contexto, culturas do Sul Global ganham destaque, assim como o artesanato, que devolve alma, identidade e alegria ao vestir. Um movimento que coloca países como o Brasil em posição estratégica dentro desse novo cenário.
4. Menos excesso, mais foco e senso coletivo no futuro da moda
Diante da saturação de opções, Edelkoort prevê uma moda mais focada e simplificada. Menos variedade, mais clareza de identidade e maior senso de pertencimento.
As marcas precisarão compreender profundamente quem são, qual é sua essência e como se conectam com suas comunidades. O futuro da moda não será mais sobre agradar a todos, mas sobre construir vínculos reais.
5. Entre tecnologia, artesanato e o “negócio da felicidade”
A presença crescente da IA e da robótica transforma a produção em espetáculo, quase uma atração turística. Ao mesmo tempo, o movimento arts & crafts ressurge com força, trazendo propósito, satisfação e significado ao fazer manual.
Edelkoort define esse novo momento como o início do “negócio da felicidade”, no qual valor, bem-estar e realização passam a ser centrais.
Dez anos depois do Manifesto Anti-Fashion, Li Edelkoort confirma: a moda não acabou — ela se transformou. O novo ciclo aponta para menos velocidade, mais consciência, mais cultura e mais conexão humana.
Interpretar esses sinais é essencial para quem atua na moda, na imagem e na criação. O futuro da moda não será sobre quantidade, mas sobre sentido.
Quer aprofundar sua leitura sobre o futuro da moda, comportamento e tendências globais?
No The Trends Club, analisamos movimentos como esses com profundidade, contexto cultural e visão estratégica — indo além da estética.
Faça parte do TTC e acompanhe de perto os sinais que estão moldando o próximo ciclo da moda.



